Jogo, espaço e encenação: Tchéckhov por dentro e por fora no espetáculo Loteamento Tchéckhov

Por Guilherme Bruno.

Lotear: ato de dividir, de demarcar. Verbo que promove um esquadrinhamento do espaço e que no terreno da linguagem teatral, aponta-se como dispositivo de jogo e dramaturgia. Sob esse mote, Loteamento Tchékhov revela o drama tchekhoviano através de fragmentos de O jardim das cerejeiras, O pedido de casamento, Tio Vânia e As três irmãs. O espetáculo surgiu no curso de Licenciatura em Teatro da UFC e tem a direção de Héctor Briones. É resultado da pesquisa do Laboratório de Poéticas Cênicas e Audiovisuais,  (LPCA), também da UFC e coordenado por Briones.

A concepção da montagem indaga sobre o ator como dramaturgo cênico e encontra em referenciais como Oskar Schlemmer, artista visual para quem o palco é uma arte sobretudo espacial; e no encenador chileno Ramón Griffero com sua ideia da cinematificação da cena, o tempero para criar a obra. Griffero, é considerado um dos encenadores mais expoentes da cena chilena contemporânea, vale ressaltar. Assim, o espetáculo propõe uma leitura sobre a obra do autor russo em que jogo, espaço, dramaturgia e encenação se retroalimentam intensamente para dar vazão aos personagens de um imaginário tido muitas vezes como “melancólico”, “inábil” e “introspectivo”. Tchéckhov, nesse sentido, o que tem a nos dizer e a instigar quase 160 anos após sua morte?

Pensar na atualidade de Tchékhov “é pensar como foi possível retrabalhar a força de seu drama através do tempo, para que chegasse até nós, dentro de um processo vivo de reinterpretações que só o teatro pode conceber” (NASCIMENTO, 2013, p. 13). O que seria então do teatro, que somente ele pode tratar? Em termos de linguagem, o teatro pode tratar de questões de modo único. O tempo, seria uma delas. Nessa perspectiva, Tchékhov, para tematizar o tempo, tema recorrente em seu drama, abandona o diálogo como instrumento de comunicação e enfatiza o lirismo das personagens, que vivem sob o signo da renúncia, numa eterna reminiscência e utopia; como aponta Szondi em Teoria do Drama Moderno.

O fascínio que a linguagem de Tchékhov exerce sobre os olhos do espectador está na sua constante apresentação lírica, que através das situações de não-comunicação e solidão, suspende o diálogo e engendra um tom épico nos monólogos que se sobrepõem, criando pequenos solilóquios de aparente ação dialógica. Os monólogos tem morada no próprio diálogo. Segundo Szondi (2011, p. 44): “o diálogo quase nunca se transforma em problema, nem sua contradição interna – nomeadamente, entre temática monológica e fala dialógica – conduz à explosão da forma dramática”.

Essa explosão se dá tanto na estrutura do drama tchekhoviano, como no tratamento de seus temas, que exploram uma Rússia do século XIX em decadência de sua aristocracia rural e ainda dominada pelo poderio czarista. Crise da sociedade russa, crise do drama. E desse modo, Tchékhov surge como figura expoente de seu tempo, mesmo que a recepção de sua obra tenha sido difícil, dado que o autor se debatera com a tradição do teatro russo, que não lhe abria as portas para suas renovações formais.

A estreia de A gaivota nos remonta muito a essa questão: foi vaiada e arrasada pelos críticos. Tchékhov jurou que não ia mais escrever, até que um ano depois, Stanislavski, montou a peça e fora um sucesso. É evidente que esse panorama histórico deixa de abarcar uma série de pormenores, mas não se trata de historicizar, a rigor, um recorte biográfico do autor.

Dessa maneira, a encenação proposta por Loteamento Tchékhov, firma-se na obra do dramaturgo russo em sinergia com o ato de respirá-lo. Respirar os temas que são russos, mas que se encontram, guardadas as proporções, em outras sociedades. Respirar, por fim, esse universo repleto de silêncio, solidão, decadência, violência, crise.

Esse movimento, quando lançado no espaço em que se propõe a encenar, resignifica-o com a presença direta do espectador, que experiencia junto aos atores, a vitalidade inerente do encontro que o teatro promove. Nessa conjectura, o horizonte de expectativa do espectador é constantemente solapado: repetições, suspensões, aguda escritura espacial da cena, estratégias de atuação concatenadas ao espaço e muito jogo como dispositivo de ação, são alguns dos elementos/recursos para tornar a encenação um prazer para os olhos de quem vê. É evidente que para cada espaço de apresentação, a encenação será direcionada em função dessa lógica. Em Loteamento, tudo parece confluir e potencializar os sentidos do espectador. Teatro na inventividade do espaço. Atores nos devires de seus corpos. E um Tchékhov revelado pela força de, praticamente, seus melhores textos. Assim, o público em procissão, por assim dizer, traz o teatro para o foco, como os gregos o faziam nas Dionisíacas.

Não obstante, Loteamento Tchékhov, seja por lidar diretamente com temas violentos da poética tchekhoviana, seja por outras razões, apresenta excesso de energia, que vibra nos corpos dos atores e estabelece uma estética vocal em que o grito, muitas vezes, surge como recurso expressivo que desconsidera a relação com o espaço, na perspectiva da dinâmica vocal nas diferentes espacialidades que o próprio espetáculo propõe; e também com a palavra em Tchéckhov. Segundo Oliveira:

O grito é uma manifestação de uma emoção ou de várias emoções contidas em nosso corpo. É um gesto vocal para fora, permitindo que o som resultante seja lançado livremente no espaço e em todas as direções, com uma melhor distribuição da energia sonora decorrente desta emissão de forte intensidade (…) do ponto de vista da anatomia e da fisiologia, observamos uma tensão das pregas vocais e das estruturas localizadas sobre as mesmas. Como exemplos, podemos ressaltar um forte fechamento glótico (uma prega vocal apertada contra a outra), uma constrição das pregas ariepiglóticas (que vão das cartilagens aritenóideas à cartilagem epiglótica), apresentando um aumento ou uma diminuição do diâmetro ântero-posterior da região sobre as pregas vocais, de acordo com o tipo de som produzido. Observamos ainda uma forte tensão das paredes laterais e posterior da faringe e retração lingual, quando o grito é emitido sem técnica (OLIVEIRA, in: Sonorização, Fisionomia e Gesto na Construção Vocal do Ator: O Gemido, o Choro e o Grito (Parte II), 1997).

Assim, uma compreensão sobre essa manifestação de intensa emoção, é apresentada pelo artigo do autor Domingos Sávio de Oliveira. Nele, o autor aborda não somente o grito, mas também o gemido e o choro, expressões que reverberam forte intensidade sonora. Para cada uma delas, o autor propõe etapas de trabalho, que apesar de conterem em sua descrição uma linguagem bastante técnica, são uma referência para o tratamento para com essas questões. Para além da questão fisiológica, considero a questão energética como fundamental nesse trabalho que Oliveira apresenta.

É evidente que nem sempre isto ocorre em Loteamento, sobretudo se considerarmos a dinâmica do espetáculo no dia em que assisti, que contou com eventualidades que fazem parte do fenômeno teatral e, mesmo com elas, o espetáculo transcorreu sem maiores interpelações. Nesse sentido, o despojamento da obra e o convite para adentrar no universo tcheckhoviano, não foi deixado para trás. Revelam ainda uma encenação enérgica e surpreendente, um elenco coeso e os elementos estruturantes da cena (visuais e sonoros) em estreito diálogo com as intenções da encenação.

Os personagens expostos pelo que lhes são próprios: a dor imensa de Tio Vânia, o tédio e à constante reminiscência de As três irmãs, o pedido apressado e risível de Vassiliyitch em O pedido de casamento, a perda da alegria e do riso em O jardim das cerejeiras: Tchéckhov em sua melhor intimidade. Por dentro e por fora.

REFERENCIAS:

NASCIMENTO, Rodrigo Alves do. Tchéckhov no Brasil: a construção de uma atualidade. [Tese de doutorado]. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP, 2013.

OLIVEIRA, Domingos Sávio Ferreira Oliveira. Sonorização, Fisionomia e Gesto na Construção Vocal do Ator: O Gemido, o Choro e o Grito. Cadernos de clínica da voz, 1997.

SZONDI, Peter. Teoria do drama moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2011
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