TODO CAMBURÃO TEM UM POUCO DE NAVIO NEGREIRO


NoisdeTeatro

Por Maurileni Moreira

Sim, todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Ou muito. Ou excessivamente alarmante para os nossos dias. Somos descendentes de negros. Temos alma negra. E falam que muitos negros tem alma branca, portanto a luta está dividida sem sabermos por onde inicia o opressor e por onde caminha o oprimido. Tudo está junto e misturado. Tudo quase como a política do café com leite, só que de um lado os negros que se afirmam negros junto com outros negros que se afirmam de outras etnias e, do outro, os brancos com sua hegemonia elitista e aburguesada. Sem espaços para a absolvição, numa terra em que a multiplicidade religiosa é nosso guia, sem falar, num espaço – tempo em que afirmamos vivermos num Estado Laico.

O grupo teatral Nois de Teatro existe há 12 anos em Fortaleza- Ce onde desenvolvem projetos culturais na Comunidade Granja Portugal /  Bom Jardim. A pesquisa estética do grupo caminha na busca por um Teatro Político em espaços públicos trazendo à tona questões dialéticas a quem os assistem.

O Teatro Político dos anos 60 e 70 surgiu com o pensamento revolucionário de ser uma arma contra o poder instalado. Este movimento foi fortemente influenciado pela AgitProp comunista dos anos 20. O teatro passou a ser visto como um veículo informativo para o público sobre os ensinamentos do Marxismo. Desta maneira, impulsionou o fervor revolucionário. Por sua vez, Bertold Brecht (1898 – 1956) – dramaturgo, poeta e encenador do século XX, revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia da encenação, instalando a função e o sentido social do teatro, utilizando-o como ferramenta de conscientização e política.

Assim como no século XX, nós atuantes do século XXI nos encontramos presenciando um teatro que não quer tão somente comover os espectadores, e sim, ‘cutucá-los’ para a realidade. O envolvimento emocional ocorre por sabermos ter histórias de vida parecidas – negros, pobres, assalariados, marginalizados desde o parto. Por isso que, numa época em que a virtualidade impera e um clique em sites de ajudas mundiais faz crer se que está mudando o mundo, parece que isentamos nossas emoções e ‘julgamos’ tal e qual nossos delitos, esquecendo a trajetória, sem lembrar que sem passado não há História.

O grupo Nois de Teatro, neste espetáculo com direção de Murillo Ramos, abriu espaço para uma grande roda plenária na Praça da Gentilândia, e o que presenciamos foi a história de Natanael. Menino abandonado pela mãe, criado pela parteira, que teve desde seu nascimento o traço da miséria.  Aos 18 anos ele decide seguir seu próprio rumo e torna-se um policial, servindo aos ditames e imposições da milícia armada. O interessante aqui não é o que é o trabalho, mas a forma como dão vida ao trabalho.

A favela parece ser o impulso para trazer à tona provocações referentes ao cotidiano e às lutas populares. O grupo mesclou questões políticas com as origens africanas – o candomblé – para dar significado à fé e ao desejo de paz em nossa caminhada. Os orixás são reverenciados em corpos femininos – Oxum e Iemanjá. Esta última a mãe de todos; e Oxum, o orixá da beleza e das águas doces, onde deixar-se fluir e não temer é o pedido de urgência para que não haja tanta injustiça.

O espetáculo está dividido em três atos: Manual prático do Oprimido, A autodestruição e Bastarda. Vemos de um tudo: Michael Jackson e Olodum, músicas oriundas da periferia, brincadeiras preconceituosas com os negros aprendidas desde a tenra infância, rap, black block, Manifestações de Junho e a cena do homicídio, que esta resume ao meu contento o camburão negreiro da atualidade. Quantos jovens são executados na favela? Qual o valor de uma vida? O que querem aqueles que deveriam proteger os cidadãos? Onde está o bem? Onde está o mal?

O ator e coordenador geral do trabalho, Altemar Di Monteiro, neste ato ajoelha-se de costas para o policial e é alvejado por tiros, semelhantes a chicotadas no tempo da senzala. A audiência fica comovida. Neste ponto, e em outros, como quando a criança pergunta a mãe se se tomar banho e passar sabonete, ininterruptas vezes, ficará branco.

O que queremos mesmo embranquecer? Seria o sistema o culpado por sermos programados para sobreviver? Quem nos tirou o grito?

Ele não consegue respirar, nem eu.

Os atores estão muito bem dispostos em seus trabalhos. Personagens são delineados e interpretados dando à luz a quem vê a questão : Qual é o seu papel nessa narrativa? A tríade narração, criticidade e política se instaura. Há de julgar.

Houve momentos da encenação em que a voz dos atores não era audível, ou momentos em que havia uma sobreposição de som mecânico e vozes humanas, mas o trabalho vem tão certeiro de seu punhal que sai rasgando e movimentando tudo aquilo que calamos por medo da própria voz. O medo da fala ainda é latente e a política é um fazer diário. Este camburão vem nos falar isto.

Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro deve ser visto por todos para que descortinem de nós achismos, e, principalmente para que questionemos com profundeza assuntos como a menoridade penal, pena de morte, legalização do aborto, manifestações religiosas.

E, por ora, insisto: Assim como propõem no final do espetáculo, todos os caminhos levam ao mesmo pai, Oxalá. Ou poderia ser Buda, Jah, Deus, Jeovah. A questão é que não deveríamos ter tantos discursos de ódio para com os nossos. A guerra hoje em dia está infiltrada e não mais sabemos distinguir opressores de oprimidos, ou talvez todos sejamos os dois.

REFERENCIAL

http://noisdeteatro.blogspot.com.br/ – visualizado em 17 de Abril de 2015

Anais do Simpósio da International Brecht Society, vol.1, 2013. O TEATRO ÉPICO E AS PEÇAS DIDÁTICAS DE BERTOLT BRECHT: uma abordagem das mazelas sociais e a busca de uma significação política pelo teatro. OLIVEIRA, Urânia Auxiliadora Santos Maia de1

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