A inexorável loucura de Elefantes Famintos

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Foto: Victor Costa Lopes

Por Larissa Paes

O espetáculo Elefantes Famintos é resultado do processo artístico articulado através das principais obras do dramaturgo francês Eugène Ionesco (As Cadeiras, A Lição, A Cantora Careca e O Rinoceronte). Desenvolvido, fundamentalmente, por alunos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), a construção dramatúrgica de Elefantes se deu coletivamente pelo grupo Teatro Esgotado.

Elefantes Famintos se finca no arcabouço das premissas de Ionesco e, de modo geral, do Teatro do Absurdo. Um teatro que se desvencilha dos moldes tradicionais, tanto formalmente quanto materialmente. Um teatro simbólico, trans-histórico que se desassocia da verossimilhança, no sentido de os personagens não serem personagens em termo ordinário. Na verdade, estão aquém e além de qualquer psicologismo identitário. Um teatro que ergue o estandarte da negação ao racionalismo demasiado, mecanizador da burguesia. Um teatro de desconstrução.

A direção e assistência de direção são assinadas por Robson Levy e Fabio Nascimento, respectivamente. Compõem o elenco Juliana Tavares, Nádia Camuça, Tavares Neto e Rai Santorini. Minimalista, o Teatro Esgotado constitui o espetáculo com 4 cadeiras. Cadeiras vivas e não apenas um mero reforço cênico. Imperativas, comungando com toda expressão corporal pungente. Assim como a palavra é o simulacro do espetáculo – já que a incomunicabilidade é a mola propulsora de desesperos -, o corpo é a voz e o eco daquilo que transpassa construções sociais.

Os corpos das atrizes Juliana Tavares e Nádia Camuça são resistentes à morte simbólica, ao sepultamento de toda lógica massacrante e metódica, pois sem a lógica do mundo pautada na moral, o que resta é olhar o espelho da loucura e saber que o mundo é torturantemente incompreensível, já que tudo é linguagem e esta é corruptora e corrompida. Como diria o filósofo Wittgenstein: a maior questão filosófica é a linguagem.

Vive-se em um mundo de ideologias, e a hegemonia ideológica é a dos dominantes, da burguesia. O pensamento é meramente reproduzido na estrutura pré-estabelecida por relações de poder.  A desconstrução ideológica do espetáculo é confusa, não no sentido depreciativo do termo, mas no sentido etimológico: uma aglutinação de aspectos exteriores e interiores tentando construir uma dialética improvável. Mas excludentes, pois a lógica exterior infeccionou todo um microcosmo com suas ideologias podadoras.

Outro corpo perturbador é o do Rai Santorini que é o símbolo genuíno do erotismo como representação da histeria. O erótico visto na derradeira cena é a anarquia do corpo ante ao mundo pudico e castrador. A dança que precede o genial gesto final, embalada pela gaita de Tavares Neto e tendo Juliana Tavares e Nádia Camuça como estandartes da loucura, é o crepúsculo do espírito, o prelúdio da morte definitiva da lucidez que aprisiona a obscena e alucinada poesia do universo.

Elefantes Famintos se alarga em sentidos, leituras. Inquieta, instiga… Sai-se do espetáculo esgotado, usurpado por toda aquela atmosfera caótica. É Teatro Esgotado, é para o público sair sem fôlego mesmo.

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Um comentário sobre “A inexorável loucura de Elefantes Famintos

  1. Belo texto. Gosto de críticas assim, que se propõem a ir além de uma análise técnica dos elementos. Que operam no sentido de propor uma reflexão acerca do olhar. Parabéns, Larissa Paes! Seu texto é um perfeito desdobramento necessário de uma obra artística.

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