A mão na Face – Grupo Bagaceira de Teatro

Fotografia Jotacílio Martins

Fotografia Jotacílio Martins

Maurileni Moreira, CenaColetiva, 28 de Setembro de 2014

(Para ler ao som de Dentro de mim mora um anjo,de Sueli Costa e Cacaso)

E a V Mostra Despudorado do Centro Cultural Banco do Nordeste chega ao fim, o evento ocorreu de 06 a 26 de Setembro e uma fatia de permissividade invadiu a Cena de Setembro. Veio a Primavera e em meio a tudo exposições em carne crua. Cabe a nós, mesmo em linhas findas, nos questionarmos: O que seria o despudor em cena?  Vale notar que não se trata necessariamente do corpo em nudez, e, sim, alma nua. Foram dias em que nos deparamos com montagens cênicas que continham o mote do que é despudorado – ausência de vergonha, indiscrição, deficiências, lacunas. Realidades duras e não muito distantes do nosso cotidiano.O espetáculo “A mão na face” é prova disso.

“A mão na face” é o sétimo espetáculo do repertório do Grupo Bagaceira de Teatro. Com texto de Rafael Martins e direção de Yuri Yamamoto, a história se desenrola em um camarim, entre um intervalo e outro de um show. Mara (Martha Aurélia) é uma prostituta veterana e Gina (Démick Lopes), uma jovem travesti. Em diálogo convulsivo, regado a gargalhadas, expõem convivências compartilhadas, dores, medos, e, para além disso: o amor de ambos. Martha Aurélia e Démick Lopes nos banham com suas interpretações.

Elas, Gina e Mara, maquiadas e vestidas de glítter e lantejoulas. Uma com  meia arrastão, a outra veste pernas nuas. Salto alto, o brilho das roupas e das bijouterias se confrontavam com a imagem disforme refletida no espelho. Há uma destemperança na encenação e uma ode à vida, mesmo que seja ela a que nos estapeia e fode incansavelmente os buracos.

O cenário é todo coberto de lantejoula e, foi  incrível constatar como se assemelhavam a granizo – aquela estrutura que apreende o frio do ambiente. Cada ator se comprometia com a iluminação de seu espaço. O público é disposto como se fossem paredes do corredor ao encontro do palco que não víamos. Porém, ele foi desenhado na dramaturgia. Chegava, em nosso imaginário coletivo, como um lugar ‘fim de  carreira’. Há um momento que é indagado ao público: o que é a vida?, isto depois de eles se colocarem frente a frente a ela, de uma forma metafórica.

Em cena vemos formas de atuação que se divergem e que se encontram; construindo uma unidade cênica pautada na diferença.  Démick Lopes lembra atuações para o cinema. A plateia, que fica muito próxima ao espetáculo, são como as câmeras.  Ele encontra closes e variações de expressões faciais que parecem, a quem o vê, chegar mais rapidamente ao submundo da personagem. O que sentimos em muitas passagens é uma identificação com as emoções torrenciais de Gina. Ela nos encaminha pelo olhar, pela postura e, mais que isso, pela movimentação insistente dos lábios, um contra o outro, a procura da cor que manchará sua boca: o batom que não pinta, mas sangra.

DSCN0932editPor sua vez, Martha Aurélia vem carregada de uma fortaleza no olhar, borrada com uma voz rouca e uma gargalhada muda. Sua boca se abre. Vendo, talvez pela construção da personagem, é um riso denso, de quem carregou no corpo muitas tentativas de sobrevivência.  Um estado da alma calejado pelo tempo. Para Martha,  o tempo tem sido bem generoso. Após 10 anos, ela volta aos palcos como atriz. Sua presença cênica nos  paralisa ante ao indizível.

Quero permanecer no olhar e na forma como ela arreganha as pernas, mostrando um certo descompor. Aconselha a amiga Gina por várias vezes a ir lá fora (show) e engolir todos que estão lá.  Se não engolir, nos engolirão. Uma fortaleza feminina que despenca na cena segundos antes do blackout.  O tempo dramático da encenação alerta para a existência dos muitos conflitos pessoais, uma ação que parte do individual para o universal.

Quem nunca  se viu sem saída brigando com a vida? São duas divas, amigas, rivais, companheiras que se montam e desmontam ao nosso olhar. O público se transforma em muitas Ginas, poucas Maras. Quem há de embrutecer o coração? Gina sonha em ir pro estrangeiro, botar peito. Mara vai envelhecendo.

Um espetáculo realista que coloca defronte ao público personagens completamente inteiros. Questionam sobre dignidade,  sobre lembranças passadas, riem e choram ao mesmo tempo. “A mão na face” deixa-nos boquiabertos com tamanha visceralidade e intensidade das personagens. Yuri Yamamoto, diretor, foi assertivo quanto às escolhas de encenação.  É maravilhoso ver profissionais maduros dando vida a personagens de forma tão intensa e realista. Eles transformam em carne viva as palavras.

A cena emblemática das perucas: uma das personagens, no início da peça, tira a cabeleira. No final, Gina experimenta várias perucas,  mas sua imagem parece não corresponder àquilo que vê. O que se vê são cabelos empilhados de mudanças. “A mão na face” pode ser um gesto de carinho, bem como de violência.  Basta compreendermos aonde nossos sonhos e sapatos apertam.

Aqui fica registrado o desejo para que “A mão na face” alcance cada vez mais espaços de atuação.  Longa estrada para o Grupo Bagaceira, que continuem fazendo a diferença no cenário do teatro cearense.

Anúncios

2 comentários sobre “A mão na Face – Grupo Bagaceira de Teatro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s