Price World, Price World, Price World!

Grupo Em Foco Price World

Grupo Em Foco Price World

Por Guilherme Bruno  

Price World ou a Sociedade a preço de banana? Price World ou as vicissitudes do consumo? Price? World? De quem? Pra quem? Como? Por que Price World é Price?  “Sejam bem vindos a Price World!”, dizem os atores enrolando a língua na boca ao pronunciar a expressão.

De fato, estas perguntas são como uma bússola à deriva, que nos lança ao desafio abissal de tentar discorrer, num exercício crítico, sobre a obra recém-estreada. O espetáculo do Grupo EmFoco, da cidade de Fortaleza, compõe a Mostra de Teatro Despudorado do Centro Cultural Banco do Nordeste. Em primeiro lugar, ressalto que esse desafio se dá, na medida em que, Price World é uma obra que tece uma busca à realidade. E caçar a realidade não é tarefa fácil, pois, antes de tudo, é preciso saber de que realidade se trata. Qual é a realidade que Price World se propõe a jogar, discursiva e cenicamente?

O espetáculo é resultado do processo criativo que acompanhou o Grupo na I Edição do Laboratório Teatral, da Escola Porto Iracema das Artes, do Governo do Estado do Ceará. Contou com a tutoria de Marcos Bulhões e tem a encenação assinada por Eduardo Bruno. Dyhego Martins, Gabriel Matos, Georgia Dielle, Lyvia Mariane, Marcelle Louzada, Thales Luz e Marie Auip (em vídeo) compõem o elenco de performers.

É dada a partida no ônibus. No ônibus? Sim! Price viaja pela cidade dentro de um ônibus, enquanto o desenrolar da trama-performance vai estabelecendo múltiplas relações com os espectadores, que ficam sob o jogo de tensão constante. Tensão esta que se apresenta como premissa de relação já de inicio. Assim, Price World vai seguindo seu rumo ao oferecer uma discussão sobre o universo capitalista, sua lógica e fetiches consumistas.

Assisti a Price World duas vezes e é a segunda que uso como referência para este escrito. Price World parecia implodir, como a lógica do capital assim o faz: uma contradição em processo. Trago este pensamento à tona, ligeiramente sob a ótica de Marx, para pensar o espetáculo no mesmo território que ele se encontra. Price World é vendido como uma ilha, uma bolha que nos surpreende com um discurso sedutor, até o momento em que o ônibus para. Não era uma parada simplesmente, como as que viriam posteriormente, era uma parada letal: o ônibus havia quebrado.

Diferentemente da primeira apresentação que vi, esta parada não estava nos planos da tripulação. Este fato me chamou a atenção porque convoca o espectador a olhar não necessariamente sobre os problemas eventuais de uma obra artística, mas sobre como esse dado dialoga com a obra. No seio de si mesma, a montagem estabelece ranhuras de um lugar indelével e utópico onde nada se abala. Um lugar-price onde todos os nossos desejos se realizam.

Quis trazer este fato porque ele me faz relembrar a lógica capitalista, na qual muitas vezes somos seduzidos e surpreendidos. Lógica esta presente nas intenções da obra. E também porque me faz detectar a dimensão da Máquina, do homem-máquina e a dominação sem sujeito que a sociedade capitalista abriga.

Essa dimensão opera numa exclusão, imposição e seleção. Seus dispositivos alimentam a informação da Máquina e por vezes, as confronta com as informações da própria Máquina, gerando pane e colapso. Imediatamente, traduzindo para o contexto do trabalho, o próprio sistema de Price World, em sua perfeição, parecia entrar em colapso degenerativo.

A tripulação, por outro lado, atenta a todo esse imprevisto, manteve-se firme e prosseguiu com Price World para as aventuras que se seguiam. Movidos pelo território performativo, num fluxo duracional espaço-tempo, os performers-tripulantes faziam paradas estratégicas no decorrer do trajeto. Evidenciavam pontos essenciais para o sentido descoberto e escolhido para a obra, como um supermercado, um shopping, a praça do Ferreira e finalizando no prédio da Justiça Federal no Centro, nas entrelinhas da metrópole.

Diga-se de passagem, estes momentos em que o público é convidado a descer do ônibus e ver o que se passa lá fora com os performers, conferem uma espécie de “válvula de escape” à peça. Aqui Price World se oxigena na relação com a cidade, mas isto ocorre mais pelo dentro-fora do ônibus, do que pelo que o espectador capta.

Esse território performativo, pensado no contexto de produção de Price World sob um viés relacional, convida o espectador a uma participação formal relegado sob as regras que o espetáculo determina. O que pode gerar, ao invés de uma crítica, uma mera reprodução aos padrões de consumo que nos cercam no cotidiano. Como a performance aqui pode provocar uma turbulência que rompa com a letargia do espectador, descortinando a aparente participação e potencializando sua realidade experimentada? Como perfurar as bordas da reprodutibilidade? Que talvez ninguém escape do rapto consumista parece-me uma assertiva. Mas, até que ponto, essa assertiva é realmente sustentável, no sentido ético-estético-político da questão? Como os artistas de Price World lidam com isso e as escolhas do trabalho?

Marx e a imensa coleção de mercadorias, grosso modo, parece não dar conta destas questões, na medida em que, o capitalismo atingiu um alto grau de contradição, atingiu nossa cognição. Do mesmo modo, a arte contemporânea, em tamanha complexidade e inventividade, tem gerado novos vetores de sentido que nos desestabilizam, inclusive sob a ótica do consumo, também não dando conta de certas questões. Qual a densidade desse rapto na performance de Price World? Que discussões emergem dos enlaces entre arte contemporânea e capitalismo que podem ir além dessas próprias categorias, minando-as por fora?

Price World é um trabalho que pode gerar um ódio torrencial, a ponto do espectador, numa das paradas do ônibus, quebrar as regras da montagem e sumir. Ou enfiar os dedos nas vaginas e nos ânus dos performers nos momentos mais despudorados e excitantes, sem questioná-los se aceitam – talvez eles aceitem. Ou feri-los violentamente de algum modo. Ou, ou, ou. Ao mesmo tempo, Price World pode gerar uma euforia avassaladora, a ponto do espectador lamber o vômito que é vendido como obra artística em meio às ovacionadas pedidas de hastag do espetáculo a ser acompanhada na fotografia que poderá cair em rede social. Ou delirar em meio àquela explosão toda. Ou, ou, ou. Price World é loucura, visualidade, Status Quo, globalização, violência, sexo, drogas. Price World é design. Design, design, design, designnnnnnnnnn!

Os constrangimentos que atingem o público – e aqui a palavra constrangimento não encerra em si um juízo, porém uma constatação – não podem ir de encontro ao que deseja Price World? O que aconteceria se o espectador resolvesse explodir Price Worrrlllld? Porque a realidade – mais uma vez ela – pode estar pronta para “dar o bote” a qualquer momento.

As feras de Price World, que ali não são espectadores formais, podem simbolizar esse bote. As feras da peça, após receberem a boa ação calcada numa entrega de macarrão instantâneo, continuarão sendo feras, não de Price World, mas do que o espetáculo parece se desconectar: do mundo real. Price World a que me refiro neste momento, não é mais a obra, é a ideia. O ônibus de Price World vai embora, todos vão pra casa. As feras de Price não, elas continuarão lá, mais feras que nunca a espera de uma nova entrega do macarrão. Isso é consumo? Ou é design?

É de uma engenhosidade absurda pensar Price World. Criá-lo então, não deve ter sido diferente. Nesse sentido, o trabalho requer um olhar muito abrangente e um labor meticuloso de discussão, no que concerne ao exercício crítico e de apreciação. Além de um respeito pelo trabalho, sem dúvida. Gostaria de escrever um livro sobre Price World e de lê-lo em um local público com mais algumas ideias para um ato performativo. De preferência para o Grupo e demais interessados.

Se neste escrito me orientei sempre de mãos dadas com o espectador e tentando traçar possíveis rotas de abordagem, como o consumo, a performance e a arte contemporânea, é porque antes de mais nada, sou-fui um espectador que, mobilizado pelo que via, dei forma a um pensamento sobre a obra. Não se trata de algo unívoco e parte de um lugar que abrange minha subjetividade, meu olhar, minhas limitações. Penso que esse é o terreno da crítica, que envolto dessas questões tenta lançar mão de alguns operadores para fazer emergir novas vistas de pontos, novos pontos de vista. Saudações a Price World, ao EmFoco!

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