Noites de silêncio: Frei Tito e as marcas da repressão

10497202_797969046921483_2887977322855195286_oFoto: Gustavo Portela

Por Guilherme Bruno

Vida, Paixão e Morte. Vida de uma memória que se revela. Paixão de uma vocação pela fé. Morte de um grande ser humano marcado pela dor de uma voraz ditadura militar. Assim, o Grupo Formosura de Teatro (Fortaleza-CE), aos quase 30 anos de atividades, encena “Frei Tito: Vida, Paixão e Morte” e desvela a biografia de um dos maiores símbolos da luta pela democracia no Brasil, passadas quatro décadas após sua morte.

Mas poderia um ‘homem de Deus’ se aliar a luta armada? Descortinam-se os arquivos. Aos poucos a vida de Frei Tito começa a ser contada, narrada. Contos, dados, fatos, memórias presentes num arquivo em aço situado ao fundo do palco. As gavetas abrem e reabrem num jogo que alimenta toda a encenação e alterna-se com intervenções narrativas de Ricardo Guilherme, que também assina o texto e a consultoria de encenação.

Ele não somente narra: canta e encanta com voz e presença que demonstram imenso entusiasmo em meio às folhas carimbadas de vermelho com o nome ‘censurado’ e uma luz amena perto de si. Mais adiante, Ricardo interpreta o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Fleury prendeu e torturou Tito no XXX Congresso da Une, em Ibiuna-SP, em 1969 e pairou como fantasma até a sua morte nos idos de 1974. Frei Tito ouviu a voz do militar até o último dia de sua vida.

Ao mesmo tempo, os atores William Mendonça, Maria Vitória e Leonardo Costa desenham as ações que captam o público e compõem a trama. Mais que apresentarem as passagens da vida de Frei Tito, os atores jogam com a sonoridade primorosa de Rami Freitas. Em cena, ele conta com um violão e outros instrumentos percussivos que pontuam as transições entre o narrativo e o dramático, por assim dizer.

Do mesmo modo, os atores arquitetam o espaço impulsionados pelo feixe semiótico que o arquivo, ao fundo do palco, provoca: suas gavetas revelam a mobilidade de signos que o espetáculo se propõe a tecer. E com recursos mínimos. O móvel, que outrora era arquivo, torna-se mala e altar de igreja, por exemplo. O uso de microfones é uma escolha acertada, mas deve-se atentar às microfonias e a vocalização.

Esse arranjo de linguagem e as escolhas que o Grupo faz  nos mostra que é possível tratar da violência sofrida por Tito – sua representação e manejo – sem necessariamente ser violento. Além disso, a radicalização da encenação detecta a propulsão que move os sentidos da criação da obra. Trata-se de encontrar as causas que engendram, dramática e biograficamente, a personalidade de Tito de Alencar Lima, sua síntese. Nesse contexto, a direção de Graça Freitas aliada à consultoria de Ricardo Guilherme detonam uma dinâmica que preza pela radicalidade, pela atomicidade. E é também nítido este diálogo na perspectiva da direção dos atores. É um modo, uma metodologia. E também uma poética, sem dúvida.

Vale mensurar as passagens entre Frei Tito (William Mendonça) e a irmã Nildes de Alencar (Maria Vitória). Elas revelam a fraternidade entre ambos, bem como o papel materno que muitas vezes Nildes desempenhava. É importante ressaltar que o texto recebeu menção honrosa no Concurso Internacional de Obras Teatrais do Terceiro Mundo, da Unesco, em 1987. No espetáculo ele é uma reedição da peça escrita no fim dos anos 80 e originalmente apresentada em 1992. Em “Frei Tito: Vida, Paixão e Morte”, a dramaturgia tem uma versão que passou por um novo tratamento.

A montagem faz parte das ações do “Projeto Sala Escura da Tortura”, promovido pelo Instituto Frei Tito e pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. É uma voz de denúncia e que se apresenta como defesa da necessidade de uma “justiça de transição”, termo que indica o enfrentamento dos efeitos de uma violência em massa na época da ditadura. Num momento em que a Comissão da Verdade, instituída pela Lei 12.528 de 2011, apura violações aos Direitos Humanos ocorridas naquele período, assistir a este espetáculo é de uma relevância ímpar.

Frei Tito tem um lugar fundamental na nossa história, na cidade de Fortaleza, no Ceará, no Brasil e no mundo. Os momentos de alegria e a vida intensa estão resguardos sob o que o teatro pode nos oferecer de mais extraordinário em “Frei Tito: Vida, Paixão e Morte”. A trajetória marcada pela dor e repressão também nos emociona com a encenação do grupo. Uma aula de história. De política. Uma aula de vida. Um teatro genuinamente cearense, feito por cearenses e que retrata a história de um grande cearense. Que o Grupo Formosura comemore essas três décadas levando este espetáculo mundo afora!

Sobre Frei Tito

Frei Tito nasceu em Fortaleza (CE), no dia 14 de setembro de 1945. Filho de Ildefonso Rodrigues Lima e Laura Alencar Lima, estudou no Colégio Estadual do Ceará (Liceu do Ceará). Participou da Juventude Estudantil Católica (JEC), ala jovem da Ação Católica. Em 1963, eleito dirigente regional da JEC (Maranhão a Bahia), com sede em Recife (PE). Em 1964, participou das primeiras reuniões e das manifestações estudantis contra a ditadura militar. No início de 1966, ingressou no noviciado dos dominicanos, em Belo Horizonte (MG).

Em 10 de fevereiro de 1967, fez a profissão simples dos votos e foi residir no Convento das Perdizes para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em 10 de Agosto de 1974, foi encontrado morto em área do Convento de Lyon. Somente em março de 1983, com a abertura política, seus restos mortais retornaram ao Brasil. Acolhidos em solene liturgia na Catedral da Sé, em São Paulo, encontram-se hoje enterrados no cemitério São João Batista, em Fortaleza.

Referencias:

Centro de Referencias das Lutas Políticas no Brasil (1964 – 1985)

Frei Tito Memorial On-Line

Grupo Formosura de Teatro

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