Máquina Fatzer – Diga que você está de acordo (Teatro Máquina)

Fotografia Deivyson Teixeira

Fotografia Deivyson Teixeira

Por Maurileni Moreira

Máquina Fatzer – Diga que você está de acordo é o  novo trabalho do grupo de Teatro Máquina,  com direção de Fran Teixeira e tutoria do ator e diretor argentino Guillermo Cacace, vencedor do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2013, na modalidade montagem de espetáculo. Selecionado para o Laboratório de Pesquisa Teatral, do Porto Iracema das Artes, o elenco conta com os atores Loreta Dialla, Fabiano Veríssimo, Levy Mota, Felipe de Paula e Márcio Medeiros. Juntos, eles interpretam quatro soldados e a esposa de um deles que se veem confinados à espera de uma revolução que não chega.

A encenação do Teatro Máquina se coloca na dramaturgia do inacabado e traz ao espectador a relação de confronto e deserção da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) provocando uma infinidade de guerras veladas, que partem do íntimo – a forma como se dá a relação entre as quatro pessoas – ao público: bombas, desacordo entre os dominantes, destruição. O cenário é um quarto. No teto dá para ver um dos caibros de madeira fora da linha de construção. No chão, uma cama de molas, uma luz domiciliar que apaga em um plugging, bancos e mesa.

Há uma outra luz, dessa vez de teto, redonda, que incide para um ponto somente. Esta luz, ilumina diretamente a única figura feminina da encenação. Figura esta que  marca o correr das horas e anuncia o cansaço das negociações pelo corpo. O que vemos aparenta não corresponder às formas do equilíbrio. Há um declive nos objetos, como se as pernas da mesa fossem de tamanhos diferentes. O que chega é a encenação da queda simbólica.

A interpretação dos atores, no que concerne a mecânica dos gestos sociais, aparenta uma fragilidade na precisão dos movimentos. Acredito que a encenação exige um maior tônus corporal e expressivo no corpo; ainda nos chega um certo pudor quanto a sexualidade da atriz.

Divulgação Fanpage Teatro Máquina

Divulgação Fanpage Teatro Máquina

Mikhail Baktin, filósofo, enxergava a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo, e não apenas como um sistema autônomo:“O homem entra no diálogo como voz integral. Participa dele não só com seus pensamentos, mas também com seu destino, com toda a sua individualidade”.  Assim, a língua inventada pelos atores encontrou voz diretamente com o nosso contexto atual, em que estamos mobilizados a sobreviver numa luta armada diária, seja pelo pão de todos os dias, seja por um espaço de competitividade e egoísmo que o sistema capitalista nos impõe.

O grupo estruturou o trabalho a partir dos fragmentos originais traduzidos pelo pesquisador Pedro Mantovini. A dramaturgia nos aborda pelo viés do que não é Fatzer, para que desta maneira possamos ter a ideia do que seja. Na segunda década do século XX Brecht tem uma virada fundamental na maneira de compreender a sociedade, assim como a forma de escrever sobre ela. Sendo estes os anos intensos de produção dramatúrgica brechtiano, intensos na quantidade de obras e na experimentação de formas e conteúdos, são os anos, conhecidos no Brasil, das ‘peças didáticas’. E Fatzer se inclui entre elas.

Dizer que você está de acordo aqui é um aprender  que a vida em sociedade nos impõe.  Não me sai da cabeça a corrida desesperada para o armário, a cantoria em forma de hino e as cenas de carinho que tornaram-se violência. O corpo da figura feminina passa a ser só carne. A beterraba e os lábios vermelhos. O tapa na cara estridente e a mulher caminhando quase louca proferindo algo que parecia uma reza, mas poderia não ser. Os corpos invadidos, desolados, abandonados. Fatzer é uma  peça na qual nos defrontamos com os nossos limites, pondo-nos numa relação dialética sobre os acordos que fazemos em busca da sobrevivência.

Aqueles quatro seres relegados ao tempo e tendo que, após a guerra, dançar o progresso: um com sorriso no rosto, outro beirando a gargalhada e mais dois que beiram a desistência.

MQN FTZR – diga que você está de acordo vem de fato a nos questionar: Sobre o que não é Fatzer? Fatzer, portanto, deixa de ser um nome próprio para ser substantivo comum: Isto é Fatzer!

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