Mariana Está no Céu – Teatro Esgotado

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Por Eduarda Talicy

Começo conturbado. Uma confusão na qual ninguém se entendia. Um debate que podia ser sobre política, futebol, o tempo ou o trânsito. Um falar alto que acompanhava o som das vozes da plateia que adentrava o Sesc Iracema. Assim iniciou o esquete Mariana Está no Céu, do Grupo Esgotado de Teatro, apresentada no nono dia de apresentações do Festival de Esquetes da Cia Teatral Acontece – Fecta.

O espetáculo é resultado da conclusão da disciplina de ator-intérprete, ministrada pelo professor Paulo Ess, no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia. Compõem o elenco os atores Tavares Neto, Juliana Tavares, Raí Santorini, Nádia Camurça e Fábio Nascimento. Segundo o diretor, Robson Levy, o espetáculo “nasce a partir das referências de filmes de terror”.

E isso fica bem claro minutos após o início, quando, no meio de uma discussão frenética, um dos cinco personagens cai repentinamente, morto, no chão. Imediatamente todas as especulações da vida alheia que outrora davam sentido a todo o falatório se tornaram pequenas demais. Antes que os personages pudessem tentar associar o que pudesse ter acontecido, a segunda pessoa cai. O silêncio invade. Naquele momento, diante do trágico, qualquer possibilidade de acordo acaba por ruir.

E quem era mesmo Mariana? O que havia acontecido? Ela foi mesmo pro céu?

Impressionou-me muito positivamente a forma como os atores lidavam com as sensações. Primeiramente  muito acomodados com uma discussão onde cada um queria impor seu achismo, depois o desespero e, por fim, o horror. Tudo muito limpo, sem ruídos. As transições repentinas de situações ganhavam, em cena, todo o arrebatamento que mereciam.

Algumas coisas no espetáculo não ficaram compreensíveis. Longe de ser um empecilho, acredito antes que é algo que deva ser refletido. Lembro de um texto sobre narrativas que li na faculdade, A Análise Pragmática da Narrativa Jornalística de Luis Gonzaga da Mota. No texto, o autor fala sobre a nossa necessidade de associarmos a vida em narrativas para podermos absorvê-la, engoli-la. Porém os fatos reais não acontecem numa ordem cronológica, numa sequência. O próprio pensamento não é assim.

Os atos, os fatos, acontecem ao mesmo tempo em que milhares de outras  coisas se sucedem, externa e internamente. Mas para traduzir, para expressar, a gente organiza as ideias, encaixa. E quando isso se rompe a sensação é de naufrágio para nossa frágil associação. Lembrei da frase de Clarice Lispector que invadiu os clichês de redes sociais: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca”. E todo o contato estava nas ações em cena.

Gosto da interpretação e sincronia dos integrantes. Gosto do que há de naturalista deles, do simples. Gosto principalmente da finalização do espetáculo, em que a personagem interpretada por Juliana Tavares vomita a história que todos queriam ouvir, o eixo que todo mundo estava desesperado pra encontrar. A atriz finaliza o espetáculo com uma série de repetições desesperadas de uma historia que não tem começo nem fim. E aí esta a riqueza interpretativa. A cada mesma história contada, uma sensação diferente.

Parabenizo ao grupo pelos trabalhos. Além da apresentação de Mariana Está no Céu, o coletivo foi premiado no Fecta com o espetáculo A Cantora Careca. Sobre o grupo, Robson Levy explica: “O Teatro Esgotado surge dessa necessidade de continuar. Há uma constante repetição de inícios fortes seguidos de abandono, mas o teatro tem a necessidade de continuidade para que possa desenvolver sua potência. Maturar”.

Vida longa ao Esgotado! Que a caminhada seja perene.

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