Carne que come carne – Tavares Neto

Divulgação Fecta

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Por Maurileni Moreira

Uma luz, um homem, uma mala e um liquidificador.

Batatas fritas, Coca-cola, Sanduíche.

Tenho pensado neste trabalho como poesia antropofágica, ou lamento antropofágico: até quando iremos nos alimentar das vísceras  de alguém para logo depois vomitar o que não dá pra comer? Até quando nos será permitido ser vistos como homens em peles bizarras, como homens em pele de cordeiro, como homens vestidos para mais um dia corriqueiro, banal, que assina o ponto da presença?

Antropofagia é uma questão cultural. Nos rituais indígenas comíamos os nossos inimigos. E os inimigos tinham prazer em serem comidos porque eles sabiam que outros de sua tribo  vingariam a morte deles. Povo Brasileiro.

Quem nos vingará? Feito Chapolin Colorado: Quem irá nos salvar?

A esquete teatral, Carne que come carne de Tavares Neto, apresentado no dia 25/07 no Festival de Esquetes da Cia. Teatral Acontece – Mostra Noturna, deixou-nos enjoados. Apesar de esta relação Multinacionais x Homens representada em produtos da McDonalds triturados no liquidificador junto com Coca-cola para ingestão ser comum em trabalhos experimentais,  tal ação ainda nos chega com asco.

Aprendemos a comê-los separadamente e a misturá-los em nossas bocas o lixo de uma Nação. Assim não causa rejeição. Ao contrário, busca-se até rima. De quantos em quantos alimentos cometemos essa disparidade? O que será mesmo que ele tanto comia e regenerava? Até que ponto somos autossuficentes? O que mais regenera em você? Seu cérebro? Sendo o cérebro, o que isso quer dizer no todo de uma educação que sempre privilegiou a razão? Que separa corpo e emoção? Que já disse serem as crianças verdadeiros homúnculos? Onde vamos chegar tendo fatiado nossos corpos em pequenos conhecimentos separados? Estão comendo você e usando membros para exportação.

Fonte Internet

Quadro de Vik Muniz – releitura da obra A morte de Marat de Jacques – Louis – David. Fonte Internet

A sinopse da esquete nos diz:  Um homem acorda  e percebe que sua mulher sumiu. O desejo dela por carne pode ser uma justificativa para o sumiço. O texto encenado foi Carne que come carne, livremente inspirado na obra do dramaturgo romeno, Matéi Visniec, O comedor de carne.

Em cena, na atuação de Tavares Neto, essa mulher parece nunca ter existido. Ou pelo menos parece que não é a ela que ele se reporta. O ator inicia numa voz rouca, não natural, olha fixamente a plateia e sua atuação vai aumentando de intensidade até ele assoar o nariz insistentemente como se o cheiro de sangue subisse para suas narinas como naquele jogo do enforcado: quanto mais o tempo passa, mas estamos aptos para a morte, mesmo que seja no papel. Algo interessante que ocorreu foi a crise de espirros que o acometeu em cena, não se sabe se foi proposital ou biológico, mas ali se iniciou a expulsão do que não era ele: carne, pele e sangue.

Em cena quadros me assaltaram a mente, como os do artista brasileiro Vik Muniz (2008) que fez a releitura do quadro A morte de Marat, Revolucionário francês, feito por Jacques – Louis – David. Na releitura ele utiliza lixo como matéria prima e um catador como modelo. A construção desta obra está  presente no documentário ‘Lixo Extraordinário’ de 2011.

Carne que come carne deu-se como proposta de dramaturgia que seguiu valorosamente o seu caminho. Mais que devanearmos se a obra nos chega como valores de bom ou ruim, devemos nos atentar à proposta estética e alusiva desse jovem artista que ousa estar em cena a partir de adaptação e direção própria. E aqui, pelo que foi dito no debate, a escolha por um monólogo não se deu pela dificuldade no trabalho coletivo, e, sim, para que ele, o ator, se pusesse em risco.  Não caiamos nas armadilhas do gosto. Alimentemos nossa sede de conhecimentos. Façamos acontecer. Que o medo não cale nossos movimentos.

Findo com a sensação de que poderia desatar a dizer mais coisas, no entanto, compreendo que nem todas as palavras são passíveis de se fazerem carne.

EVOÉ!

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