Isadora Omar e Meu mundo acabou com um beijo – Para pensarmos a representação do Feminino na Cena Contemporânea – Cia. Verdade Cênica e Coletivo Encruzilhada

Divulgação Fecta

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Por Maurileni Moreira

Dessa vez, por uma questão identitária, uno dois trabalhos apresentados na Mostra Noturna do Festival de Esquetes da Cia. Teatral Acontece, no dia 25/07,  por encontrar neles características do que consideramos ser feminino, assim como reflexões quanto ao papel social da mulher versus relações de matrimônio, numa sociedade patriarcal e monogâmica.

Isadora Omar, esquete teatral da Cia. Verdade Cênica, texto de Gutto Moreira e interpretação de Wládia Torres, traz à cena uma mulher abraçada a uma tarrafa à espera daquele que foi ao mar. Tudo leva a crer que seja o Seu Homem – marido, companheiro. Tal constatação se presentifica no momento em que ela diz ser a este corpo (evidenciando o dela) que Ele volta. A ideia do corpo-porto, então, se instaura. Vê-se uma espera resoluta e um cotidiano que se repete, desde a certeza de se saber onde os objetos domésticos se encontram até o olhar vagante em direção ao mar.  

A esquete nos envolve num universo imagético e sensorial, isso sem, em nenhum momento, haver a relação de proximidade entre corpo e plateia. Mas é visível algo no rosto, nos cabelos, no corpo e no vestido azul rendado da atriz que ela está banhada de terra e sal. A água vem depois. Ou vem mesmo no processo de uma espera quase infinita. Uma sensação peculiar de Esperando Godot em cena, visto pelo viés do feminino. A quem foge a ideia, Esperando Godot de Samuel Beckett conta o enredo de dois vagabundos  que esperam infinitamente ao pé de uma arvore por um indefinível Sr. Godot, que jamais comparecerá ao encontro marcado. Por meio dessa parábola, Beckett retrata a solidão e a incomunicabilidade entre os homens.

Divulgação FECTA

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Já “Meu mundo acabou com um beijo”, do Coletivo Encruzilhada, nos propõe em cena um corpo melodia. Uma mulher, dona de casa, envolvida nos afazeres domésticos, movida por uma música de Diana ao fundo – Quero te ver sorrindo – se movimenta no palco. Em poucos minutos vemos a trajetória de uma vida toda: paixão, amor, casamento, filhos, traição, crime passional. A representação do homem está contido nas roupas masculinas penduradas no canto direito do palco: calça e blusa social.  

A atriz Larissa Montenegro se desloca graciosamente entre os objetos cênicos. Baldes são vistos como grandes panelas onde contém alimento de amor, roupas espalhadas pelo chão da casa que servem como embelezamento de sua figura doce e angelical, balões em formato de coração quase como balões de pensamentos. Tudo isto vai nos remetendo a um universo categórico do amar: o de ser somente dele e, eternamente dele: namorada, depois esposa, depois empregada, mas nada de amante.

Entendamos aqui a palavra amante como àquela que sente prazer e não tem pudor nem culpa por satisfazer os seus gostos pessoais. Em nenhum momento o surgimento de uma outra mulher em cena pode ser vista como inimiga. Essa relação construída de que as mulheres não podem ser amigas e que todas as mulheres são falsas e traíras surge para que não tenhamos empatia entre nós contribuindo desta maneira para um pensamento machista. O termo sororidade, muito utilizado no feminismo contemporâneo é justamente um pacto entre as mulheres que se reconhecem irmãs, sendo esta irmandade uma dimensão ética, política e prática do feminismo dos dias atuais.

Esta relação e outras, tais como amar antes a si do que o outro devam prevalecer. Que a culpa e o estereótipo de como as mulheres devem se portar em benefício da manutenção de um sistema machista e patriarcal deve ser anulada. Questiono-me a assistir Meu mundo acabou com um beijo até que ponto encenar uma esquete nestes formatos contribui para a imagem da Mulher na Atualidade. Deixo bem claro que não faço apologia a infidelidade, no entanto firmo um lado das relações afetivas na base do diálogo e da lealdade: a fase Vinícius de Moraes está morta!

“Se você quer ser minha namorada/ Ah, que linda namorada/ Você poderia ser/ Se quiser ser somente minha / Exatamente essa coisinha / Essa coisa toda minha / Que ninguém mais pode ser / Você tem que fazer um juramento / De só ter um pensamento / Ser só minha até morrer”.

O ponto ápice de “Meu mundo acabou com um beijo” acontece no momento em que a mulher encontra no colarinho da camisa social de seu marido a marca de um beijo feito de batom vermelho. Uma cena em que nos remete que seus pensamentos estão fumegando junto com o ferro de engomar e a roupa branca que ela, a mulher, mesmo depois do acontecido, não deixa de lado. Permancem suas propriedades como esposa. Aqui, a Rainha do Lar.

Não cabe a este escrito contextualizar a História do Feminismo, mas cabe a quem se propõe representar o feminino, mesmo que não esteja claramente na ideia como encenador esse viés, a trajetória da História das Mulheres, para que possamos contribuir positivamente neste percurso.

Ambos os trabalhos estão bem amarrados cenicamente e assim como Isadora Omar precisamos ver o o mar no seu feminino: A-MAR.

Que o amor  e todas as suas ondas nos façam crer na companhia de algo ou alguém que caminhe lado a lado, sem submissão. De igual para igual.

Amemos!

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