A loja de Chapéus – Cia. Oito Pontos de Teatro

 Por Maurileni Moreira

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Podemos começar pensando em tempos modernos: esta modernidade que impulsiona o homem a ser  veloz, a ser uma marca, a se tornar específico em apertar parafusos, a vir a ser um homem maria-fumaça ou homem-bala: o homem do seu tempo – aquele que não espera, mas é arrastado pelas informações e solapado pelas imagens. Assim é a ideia primeira que tenho em A loja de Chapéus.

O grupo Oito Pontos de Teatro apresentou, no sábado, 19 de Julho, uma esquete livremente adaptada da obra de Karl Valentin. Um autor de grande influência na cultura alemã que tem seu trabalho centrado em jogos de palavras. A loja de Chapéus traz a cena um diálogo entre o vendedor  e o cliente, sendo que entre eles coexiste um embate comunicacional que os impossibilita a concluir uma venda.

Adonai Elias e Isaías Vasconcelos, estudantes da Universidade Federal do Cearal e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, invertem os papéis sociais em cena, enquanto atores: apresentam-se como pessoas individuais que irão se prestar ao papel de um destes personagens. É visto, aqui, claramente uma ideia de distanciamento brechtiano e assim sendo, vemos dois atores com vontades impulsionadoras de experimentação cênica. Eles iniciam em uma apresentação pessoal falada em microfone/pedestal introduzindo o espectador para uma análise crítica da situação. No palco, projeções históricas e cotidianas, uma escada de alicerce e duas cadeiras. Inicia-se o combinado: o fracasso.

Assim que dá início a encenação vemos duas figuras institucionais acadêmicas e a quantidade especificada de vida: os títulos de graduando e suas idades. A interpretação dos dois atores divergem. Podemos pensar aqui que a divergência se encontra na formação educacional, mas isso não está muito claro, tanto quanto escolha de dramaturgia. Nós vamos meio que querendo adivinhar a que eles se propõem. O ator Adonai Elias, encanta pela sua espontaneidade na atuação. Adentramos em suas palavras pelo viés da identificação; ele nos faz crer que seu papel enquanto artista que pinta chapéus e os vende seja apenas um ganha-pão de quem quer sobreviver de Arte, e, não de chapéus. Pensando aqui na metáfora poética que a cena nos traz.

No entanto, os atores reiniciam o trabalho e mudam os papéis: antes A será B e B será A. Assim mesmo feito lógica matemática. Mas, a atuação de Isaías Vasconcelos não nos chega com tamanha verdade. A cena segue de acordo com a primeira encenação, e nos deparamos com a unidade cênica ficando previsível. Antes, os atores estavam tão somente sentados em suas cadeiras, e no momento seguinte o alicerce que os separava  foi usado dando retirada a projeção inicial e instaurando sombras humanas na rotunda.

A cena vai se encaminhando para o fim, ou para o inevitável: a compra firmada com êxito. Neste momento, o chapéu é derramado sobre o corpo do ator Adonai Elias, e podemos aludir a isto como um banho de sangue por todas as vezes que vamos ao encontro da violência do querer ser inserido na sociedade. Visto que, logo após este derramamento de tinta vermelha o ator conclui que não era necessário usar chapéus para aparentar ser moderno. E é aqui que nos deparamos com a pergunta básica de alguém que quer comprar algo que não foi feito para si: Por que eu quero um chapéu?

A auto-observação praticada pelo artista, um ato artificial de autodistanciamento, de natureza artística, não permeie ao espectador uma empatia total, isto é, uma empatia que acabe por se transformar em autêntica auto-renúncia; cria, muito pelo contrário, uma distância magnífica em relação aos acontecimentos. Isso não significa, porém, que se renuncie à empatia do espectador. É pelos olhos do ator que o espectador vê, pelos olhos de alguém que observa; deste modo se desenvolve no público uma atitude de observação, expectante.(Estudos sobre Teatro – Bertold Brecht, 2005. Pg. 78).

Os atores buscam entre si a construção de um homem público e depõem que para ser-se moderno não precisamos de chapéus. A modernidade então não estaria no adquirir algo, e, sim, nas relações de construções de mundo das pessoas.

Por que surge em nós o desejo de inserção à Modernidade? O que seria este chapéu nos dias atuais? O que seria esta tal modernidade? Qual seriam mesmo a utilidade pública de um chapéu que não só servisse como tal, na sua utilização grosseira, mas servisse como imagem? O que precisamos para sermos inseridos nesse tempo que corre depressa demais? Onde fica o homem e seus desejos de pintar de azul um pedaço de papel branco? Ele queria, tão somente, um chapéu amarelo, bege, ou mesmo cinza, sem expectativas de muitas cores? Será?

A Loja de Chapéus, produção da Cia. Oito Pontos de Teatro, está no caminho das perguntas, sendo, portanto, uma iniciativa de trabalho louvável para cena cearense. Cabe a nós enquanto artistas não abandonarmos esta artesania, e,crer que é no diálogo entre a prática e a teoria dos nossos estudos que se dá a práxis de cena.

 

Arrisquemos! Sempre!

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