Olha a banana, olha o bananeiro! Olha o azeite, olha o azeiteiro! – Azeite de Oliva (Coletivo Escambau)

Por Guilherme Bruno

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Foto: Italo André/Fecta: divulgação.

Uma aparente calmaria para um diálogo aparentemente banal. Um sabor de cotidiano regado a muita ironia.  Uma ironia regada ao sabor de um bom café e ao tilintar das xícaras. Ironia presente no espaço da casa, onde a gente vive como abrigo do que se passa lá fora, no mundo, na rua. Uma verdadeira rede de figuras de linguagem. Na casa, ou ainda do que ela nos constitui, as microtensões são parte de um certo convívio, que nos abocanha todos os dias.

Cozinhar o cru, destilar o azeite: como suave veneno. Um azeite para lambuzar-se. Tudo está nos conformes, o jantar está na mesa. Os casais são felizes assim. Nós somos felizes assim. A família – que tipo de família? – é feliz assim. Fazemos dessa felicidade objeto de si mesma. Que maravilha! E de repente, uma banana para calar as nossas bocas. Para calar a boca. Toda ela enfiada num gesto brusco até o entalar das amígdalas, da garganta. Palavras de carinho. Uma ânsia de vomito. Mas não, nossas bocas cospem, cospem pedacinho por pedacinho da fruta. E a dela, a da atriz. E a dela, a da mulher.

Fruta, comida, verdura, cor, textura, forma, imaginação. Azeite para lambuzar-se. Comida para, para o quê mesmo? Comer? Comida para o quê mesmo? Para escambalizar. Eis Azeite de Oliva, esquete do Coletivo Escambau, último a ser apresentado pelo Festival de Esquetes da Cia Teatral Acontece – Fecta, no domingo, 20.

Já não bastasse a banana, encontramos em outros ingredientes muito mais possibilidades de deglutição. Alface, pimentão de todas as cores, cebola. Cebola para nos fazer mais que chorar. Tomate. O que mais? Com quantos ingredientes se faz um azeite? Com quantas frutas e verduras se constroem uma poética? E como tudo isso ganha vida naquilo que o teatro proporciona: o seu tempo, seu espaço, sua forma?

Não se trata de obter respostas. Nem de meras convenções daquilo que se é ou do que poderia ser. Esse lado da crítica me é insuportável. Crítica para quê? Comida para quê? Pareço entrar em devaneio. Isto porque a riqueza dos esquetes apresentados nesta edição do Fecta nos tiram do lugar. Promovem outros eixos. Não são nem começo nem fim. É nítida a presença da pesquisa nos trabalhos, que conseguem ter um resultado para além de um resultado. Difícil compreender? Penso que é a vontade de fazer teatro que mobiliza essas questões todas e nesse sentido o esquete do Coletivo Escambau representa essa vontade em movimento, cor, vida. Pimenta.

Para não esquecer: o figurino aqui é dramaturgia. É pele e experimentação. E com um material que faz da pesquisa um lugar de muito trabalho. E este material não poderia ser melhor. Parece óbvio, mas não é. E é. E que seja. E se for? E se não for? Mais indagações. Por outro lado, a iluminação não nos capta o olhar, quando das ações mais clímax. A ação de violentar o outro a comer não se espraiou. Algo ficou no escuro. Será?

Finalizo este escrito, que compõe o último dos 4 que escrevo sobre a noite de domingo do Fecta, muito feliz pela cena de Fortaleza, pelo fortalecimento do teatro cearense em sua diversidade de cores, formas, caminhos, viagens! Porque nem só de teatro da convenção vive o homem. Assim como, nem só de teatro contemporâneo também. Os teatros são muitos! São infinitos! Parafraseando a enigmática Cacilda Becker: “Todos os teatros são meus teatros!”.

Direção, atuação, cebola, pesquisa, figurino-dramaturgia, pimentão, imagem, cor, tomate, textura, voz, gesto, alface, verde, amarelo, branco, farinha, azeite, luz, veneno, açúcar, sal, café, café! Xícarassss! Cozinha, sala quarto, casa! Casaaaa! Azeite de Olivaaaaaaaaaa!

Até a próxima Escambau!

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