As Comadres – Grupo Degraus (Baturité – Ceará)

Por Maurileni Moreira

Divulgação: Fecta

Divulgação: Fecta

 

O Grupo de Teatro Degraus – Baturité/Ce trouxe aos palcos do Teatro Antonieta Noronha o espetáculo As Comadres. A montagem livremente inspirada no texto Conversas de Comadre a espera da morte, de Guido Fidelis, conta com direção de Arnoldo Araújo  e foi apresentada neste sábado, 19 de Julho.  Sendo o Degraus, o representante dos grupos interioranos do Ceará na mostra competitiva – Mostra Noturna –  selecionado pela terceira vez para participar do Festival de Esquetes da Cia. Teatral Acontece – faz-se importante nos debruçarmos um pouco sobre o histórico do grupo e a sua atuação.

O coletivo nasceu das festividades e da encenação da Paixão de Cristo na comunidade dos Candeias, próximo a Baturité. Registrou-se enquanto grupo de teatro em 1986 com o nome ‘Degraus’ tendo como objetivo a encenação cristã, perdurando neste viés de atuação durante 15 anos. Com a entrada de Arnolddo Araújo, atual diretor, o grupo começou a trabalhar em outros projetos, como dramaturgia do Teatro Brasileiro e do Mundo, contribuindo assim para a formação de artistas na sua cidade. Com a resolução do novo formato, o trabalho se estendeu por todo o interior de Baturité.

As Comadres

Foi a partir da relação Cia. Palmas e Produções Artísticas  que o Grupo Degraus iniciou montagem de AS COMADRES.  Na apresentação deste sábado, assim que o trabalho começou, me reportei á pesquisa de Francinice Campos – diretora da Cia. Palmas e Produções Artísticas, de Fortaleza/Ce. A investigação de Francinice Campos envolve o universo e as obras de Frederico Garcia Lorca e, ali, à nossa frente estava presente a troca entre os grupos: nos figurinos pretos, que passam uma densidade trágica; no cenário com bastantes elementos no palco, e principalmente,  a voz. Uma voz que toma a caixa cênica, com palavras bem pronunciadas, articuladas.

O texto conta a história  de Dona Encarnação, que está no leito de morte. Vendo a situação, as comadres da Companhia de Amigas da Irmandade de Santo Antônio, tratam logo de providenciar o fim do sofrimento de comadre Encarnação. Crendo que suas preces serão atendidas, dividem os bens da Comadre a partir dos seus interesses. A surpresa é que Comadre Encarnação surge saudável e as expulsa de sua casa.

Sonoplastia no palco. A atriz que representa Dona Encarnação entra vestida de morte e expulsa as outras comadres. Quando estas estão na boca de cena, a fala se perde. Ouvia-se algo estrondoso que sabíamos pela sonoridade que algo pras comadres não havia saído como combinado, que o plano ruiu. O som era algo perturbador. Black Out.

Em cena, algumas questões me intrigaram, principalmente da ordem do ver, que acredito, portanto está intrínseco a minha prática teatral, e, até talvez a uma “de-formação” dessa prática: estranhei profundamente o texto fechado, bem amarrado. Estranhei mais ainda, ao ler a obra escrita de Guido Fidelis, encontrar em cena as mesmas palavras, uma relação fidedigna de representação. Estranhei profundamente porque nos cinco primeiros minutos não consegui compreender – apesar do português bem falado – do que as personagens falavam, visto que a beleza do figurino me assaltara os olhos.

Eu mais contemplava as rendas e os botões do que me entrelaçava com a mesquinharia daquelas comadres. Fiquei encantada com o surrealismo do cenário: xícaras menores que suas bocas, lustres maiores que a própria vela, leques em formatos de olhos e um terço que era uma corrente de metal, aproximadamente de uns 4 metros. Há, e havia os portas retratos pendulando no teto!

A encenação de As comadres me inquietou nesse ponto. O Teatro Contemporâneo não levanta bandeira pelo fim do texto, mas parece que estamos nos esquecendo de como falar um texto em cena. Ou de como trabalhar texto, corpo e voz. Ou estamos desacostumados com obras fechadas, ‘peças bem feitas’ ou não mais queremos nos reportar ao teatro aristotélico. Ryngaert, em seu livro Introdução à análise do teatro, escreve ‘O teatro atual aceita todos os textos, qualquer que seja sua proveniência, e deixa ao palco a responsabilidade de revelar sua teatralidade e, na maior parte do tempo, ao espectador a tarefa de encontrar aí seu alimento. A escrita teatral ganhou em liberdade e em flexibilidade o que ela perde, por vezes, em identidade’.

Uma inquietação que me tira do lugar de onde estou e me desestabiliza.

Atualmente o Grupo Degraus promove em Baturité  O Programa de Formação de Atores, Oficina de Atores da Cia. Degraus , voltado para toda a comunidade.

Arquivo Pessoal Grupo de Teatro Degraus

Arquivo Pessoal Grupo de Teatro Degraus

 O grupo Degraus continua fazendo anualmente a encenação da Paixão de Cristo da comunidade das Candeias e tem uma agenda lotada durante todos os meses do ano, principalmente com Os Palhaços – Clowns – do Grupo Degraus que fazem trabalhos voltados para a interatividade, entretenimento em aniversários e eventos em geral. A Cia. não tem nenhum patrocínio de nenhuma entidade atualmente, nem político ou partido do tipo. Nosso recurso vem do nosso trabalho enquanto artistas, com bilheterias em nossas estreias ou ás vezes editais que nos contemplam e festivais que pagam cachê. ( … ) A persistência, coragem e o amor pela arte é que mantém nossa alma e nossa chama acesa na busca de se alcançar cada vez mais um DEGRAU. Cia. de Teatro Degraus por John Wesley.

E é com a sensação de que precisamos de mais montagens  e experimentações teatrais que findo estas palavras. E que prevaleça sempre em nós, artistas – estudantes – pesquisadores, o anseio de conhecer o trabalho do outro e, que, a partir dessa troca possamos ganhar mais que troféus: ganhemos experiência e conhecimento.

 

Parabéns ao Grupo Degraus!!!

 

EVOÉ BACO!

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3 comentários sobre “As Comadres – Grupo Degraus (Baturité – Ceará)

  1. isso ai:ganhemos mais que troféus, experiências. Feliz que estejamos interessados em impulsionar a vontade de apreciar arte, ânsia de aprender, Não assisti ao espetáculo mais o texto me move a vê lo.

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